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Primaluz parteiras conteporâneas


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  1. A Casa Moara

    Ajudar a nascer. É esse o significado da palavra Moara em tupi-guarani. E foi em torno desse objetivo que nos reunimos na Casa Moara. Trata-se de um espaço de convivência especialmente dedicado às mulheres grávidas e suas famílias.

    No Brasil, país com um dos mais altos índices de cesárea do mundo, as famílias que optam por um caminho mais natural e menos intervencionista para o parto têm dificuldade de encontrar apoio para fortalecer suas decisões e fazer valer suas escolhas. É esse suporte, fundamentado nas mais recentes evidências científicas e recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS), a ajuda mais valiosa que podemos oferecer.

    Para cumprir nossa missão de ajudar no nascimento não apenas de um bebê, mas também de uma nova mãe e um novo pai, a Casa Moara dispõe de atendimentos nas áreas de obstetrícia, ginecologia, parteiras contemporâneas, pediatria, nutrição, psicoterapia, fisioterapia (preparo e reabilitação perineal), acupuntura e medicina antroposófica. Coloca também à disposição atividades que contribuem para uma gravidez mais saudável e prazerosa, como yoga, dança, Eutonia, Shantala, vivências e reuniões de grupos de apoio (gestantes, pós-parto e amamentação, avós e avôs). Para mães e pais, oferecemos cursos de preparação para o parto e de cuidados com o bebê. Para profissionais, o curso de formação de doulas e atualização em assistência humanizada à gestação e ao parto.

    Ponto de encontro de pessoas que entendem o nascimento como um evento familiar emocionante e transformador, a Casa Moara é um local de troca de experiências, onde as vivências individuais contribuem para fortalecer o grupo como um todo. Essa é a nossa forma de ajudar a nascer.

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    Agenda, Destaques
  2. Na penumbra e no silêncio, cercado de amor e respeito, chegou ao mundo nosso segundo filho, Bernardo

    A primeira filha de Carla nasceu de cesariana. Na segunda gestação, ela buscou informações, frequentou assiduamente os Encontros de Gestantes e se encantou com o parto humanizado. Após uma bem sucedida versão cefálica externa e uma indução necessária, o pequeno Bernardo veio ao mundo num parto lindo e natural no hospital.

    Imagem 1_Relato Carla Dieguez
    Por Carla Dieguez, mãe de Luisa e Bernardo

    A história do parto do Bernardo teve início há muito tempo, mesmo antes do nascimento da Luisa. Por isso, decidi começar este relato contando como veio ao mundo minha primeira filha.

    Luisa foi concebida de forma planejada e desejada. Engravidei com 35 anos, no segundo mês de tentativa. Minha gestação transcorreu normalmente. Consultas com obstetra e ultrassonografias de rotina, tudo ótimo, exceto pelo fato de que minha bebê estava sentada dentro da minha barriga, o que impossibilitaria – segundo minha visão e informação naquela época – um parto normal. Eu queria muito o parto normal. E, assim como muitas mães cujos relatos preencheram a gestação do Bernardo, eu achava que bastava querer. Pratiquei yoga durante toda a gravidez, fiquei na posição invertida para ajudar a Luisa a virar, coloquei travesseiros debaixo dos quadris antes de dormir. No ultrassom de 36 para 37 semanas, a decepção. Ela continuava sentada. Chorei na sala do exame, frustrada. Mas aceitei a cesariana sem muitos questionamentos. Afinal, minha médica não havia me dado nenhuma outra opção.

    Com 38 semanas, outro ultrassom e a bebê com restrição de crescimento. O médico do ultrassom ficou preocupado, ligou para minha obstetra. Ela me explicou que a Luisa não estava crescendo adequadamente no meu útero e que seria melhor tirá-la de lá. Com tristeza por não ter o parto desejado, marcamos a cesárea. Minha princesa nasceu no dia 30 de janeiro de 2011, com 38 semanas e 6 dias. Não tive nenhuma contração nem senti nada que indicasse que ela queria nascer. Fui para o centro cirúrgico, fui anestesiada, colocaram aquele campo azul na minha frente. Não via nada, não tinha dor, só sentia mexerem muito na minha barriga. Luisa saiu de bumbum e foi direto ser examinada. Chorou e se debateu muito. Eu via tudo de lado. Me sentia meio anestesiada nos sentimentos também – era tudo muito novo, e eu tinha uma filha! Depois de um tempo (e de todos os procedimentos invasivos e desnecessários realizados nela pelo pediatra de plantão), trouxeram minha pequena para eu ver. Toda enrolada, nada de contato pele a pele. Ficou alguns segundos e a levaram embora enquanto eu era costurada. Depois que tudo acabou, fiquei no centro cirúrgico esperando voltar a sentir as pernas, pois as salas pós-parto estavam ocupadas. Minha Luisa não ficou comigo. Para mim, foi uma eternidade. Meu marido me contou, mais tarde, que ela ficou naquelas caminhas aquecidas chorando muito. Meu coração fica apertado quando penso nisso. Mas foi assim, é a história dela. Veio para o meu quarto horas depois, linda, tão pequena – nasceu com 2.650 kg. Foi quando pude abraçá-la e dar de mamar.

    Amei minha filha desde sempre, um amor que aumenta a cada dia. Mas o parto cirúrgico só fez reforçar em mim o desejo de um nascimento sem intervenções. E então fui em busca do meu desejo, desta vez de forma intensa e consciente.

    Engravidei novamente quando Luisa tinha um ano e sete meses. Foi planejado e na primeira tentativa. Com nove semanas, perdi o bebê. Veio uma tristeza grande e a certeza de querer tentar de novo. Logo tive a notícia de uma nova gravidez. Que começou de forma meio turbulenta, com muito enjoo, dor de estômago, azia, ufa…e um sangramento forte com 13 semanas. Ultrassom de urgência, tudo bem com o bebê. Era a placenta se movendo.

    Fazia meu pré-natal com a mesma médica, em quem eu confiava, apesar da frustração do primeiro parto. Mas, em paralelo, comecei a buscar avidamente informação sobre parto normal, natural, humanizado. Uma amiga querida me indicou a Casa Moara. E lá meu sonho começou a tomar forma. Passei a frequentar os encontros de gestantes todas as quartas-feiras. Às vezes, quando minha mãe estava aqui em casa (ela mora no Rio), ela ficava com a Luisa para o Renato poder ir ao encontro comigo. Era muita novidade, muita informação embasada em evidências científicas, muitos relatos de parto. Compramos o livro Parto com Amor, que devorei em horas. Era assim que eu queria parir – de forma natural, humana, respeitando meu corpo e meu bebê.

    Com 20 semanas, marquei uma consulta com a parteira indicada pela minha amiga. Demorei para avisar à minha antiga médica que eu não teria meu parto com ela. Acho que estava esperando mesmo a consulta com a obstetra humanizada, que eu já conhecia dos encontros de quarta-feira. Gostei dela, confiei e tomei a decisão de trocar de médica, com o apoio do Renato – que no início questionou minha decisão, brincava comigo que eu queria ter filhos em Noronha com os golfinhos…Depois virou super defensor do meu desejo e foi o melhor companheiro de parto que eu poderia ter.

    A gravidez transcorreu normalmente, mesmo com o diagnóstico de diabetes gestacional, controlada com dieta e aquelas picadas chatas no dedo. Bernardo estava bem, crescendo de forma adequada, o líquido estava ok, minha pressão ótima. A cada consulta com a parteira ou com a médica, tirávamos muitas dúvidas: fases do parto, como lidar com a dor, o que eram os pródromos, como saber quando o trabalho de parto realmente começasse… Tudo perfeito, exceto por um detalhe – Bernardo estava sentado! Com 24, 28, 32 semanas…claro que eu sabia que ainda poderia virar, mas o fantasma do bebê pélvico me assombrava. Eu achava que não bancaria um parto normal pélvico. E que não merecia dois filhos pélvicos. Fiz acupuntura para ajudar a virar, fiz exercícios na yoga, comprei a bola suíça. E nada. Com 32 semanas, consulta com a obstetra e questionamentos sobre a versão cefálica externa, manobra que faz o bebê virar dentro da barriga (que eu não conhecia nem havia sido informada na gravidez da Luisa). Ela me disse que daria para tentar fazer no consultório, mas que ainda era cedo, pois o bebê, pequeno, poderia se mexer e desvirar. Eu quis tentar e ela fez. Deitei, ela se agachou ao meu lado e começou a massagear minha barriga, empurrando a cabecinha e o bumbum do Bernardo. Ficou assim uns dez minutos. Não senti dor, apenas um desconforto. Renato ficou ali, olhando. Depois de um tempo, a médica disse: acho que virou! Ouviu o coração, estava em outra posição na barriga. Bom sinal. Saí super feliz, mas ainda sem acreditar muito… No dia seguinte, uma dor enorme na barriga, parecia que eu tinha levado muitos socos. A médica me tranquilizou que era normal devido à manobra, mas que eu fosse ao hospital fazer um ultrassom para ter certeza de que estava tudo bem. Cada vez que o Bernardo se mexia doía a barriga. Exames feitos (ultrassom e cardiotoco), tudo ótimo e ele de cabeça para baixo! Assim ficou até nascer. Saímos bem felizes de lá. No dia seguinte quase não sentia mais dor.

    Com 32 semanas, consulta com a fisioterapeuta e início das massagens no períneo para preparar o músculo para a saída do bebê. A partir da 35ª semana, treinamento com o Epi-no. Bem desconfortável…quantas vezes não quis fazer, mas o Renato me incentivava e me lembrava do propósito daquilo. Sem episiotomia, sem laceração. E fizemos direitinho, chegando a 29cm de circunferência. A médica tinha dito que 28cm era a meta. Estava ótimo.

    Com 38 semanas, minha mãe veio do Rio, já esperando o Bernardo nascer. Ela ficaria com a Luisa quando fôssemos para o hospital. Só que meu pequeno não queria sair do quentinho. E lá se foram 39, 40, 41 semanas…foi quando tivemos que tomar uma decisão. Ao completar 41 semanas, fomos ao laboratório fazer mais um ultrassom e cardiotoco. Bebê ótimo, mas líquido amniótico baixo. O que preocupou foi que o líquido estava normal no ultrassom que fizemos 3 dias antes, ou seja, foi para abaixo do mínimo recomendado em poucos dias. Liguei para minha médica e ela, pela idade gestacional avançada e o fator novo do líquido baixo, recomendou induzir o parto. Perguntou se queríamos induzir no mesmo dia ou se eu preferia tomar muito líquido e refazer o ultrassom no dia seguinte. Fiquei tensa e triste. Queria entrar em trabalho de parto espontaneamente. Disse a ela que ia pensar, conversar com o Renato e decidir. Liguei para as parteiras (uma delas com quem tinha sessão de acupuntura marcada para aquele dia à tarde) e para minha doula. Acabamos acatando a sugestão de esperar aquela noite para ver se a acupuntura faria efeito e, caso o trabalho de parto não começasse, induziríamos no dia seguinte. Apesar da minha frustração pela indução, achei melhor do que fazer outro ultrassom – caso o líquido estivesse baixo ainda, teria que induzir de qualquer forma. Caso estivesse normal, teria que fazer ultrassons com ainda mais frequência, aumentando minha ansiedade e preocupação.

    Então, com 41 semanas e 1 dia, em 09/08/13, demos entrada na maternidade para induzir o parto. Na noite anterior, após a acupuntura, senti contrações leves, às vezes doloridas, mas nada regulares. Foi assim desde a 39ª semana, contrações de treinamento frequentes no final do dia ou à noite. Mas nada engrenava. Às 10h30, chegamos ao hospital, onde nossa doula já nos esperava. Cardiotoco, medir pressão, burocracias e mais burocracias da internação. Tudo bem comigo e com o Bernardo. Às 12h30 entramos no centro obstétrico, já em companhia da parteira. Fomos para a salinha de pré-parto, pois uma Delivery Room estava interditada e outra sendo usada. Por volta das 13h, início do procedimento de indução – soro com ocitocina em dose muito baixa. A dose ia aumentando gradativamente, assim como minhas contrações. Após um almoço leve (demorou tanto para chegar minha comida que passou o horário do almoço; me deram sopa e sanduíche, apesar da minha fome de leão), caminhei por um tempo pelos corredores com a doula, para ajudar a ‘engrenar’. Até então, tudo perfeitamente suportável, com dores leves e regulares.

    Aqui começa o relato do trabalho de parto para valer. Foi tudo intenso, muito intenso. Dolorido, sim, mas não é disso que me lembro. Me lembro de me entregar totalmente às sensações. Me lembro de querer sentir meu filho nascer, de querer me abrir para que ele saísse de dentro de mim. As contrações fortes começaram quando a médica estourou minha bolsa, às 17h – sugestão dela para ajudar a indução e poder retirar a ocitocina sintética. E funcionou. Às 18h o soro foi retirado e meu corpo agiu sozinho. Perdi a noção do tempo, entrei na ‘partolândia’, parecia que estava em outra dimensão. Quase nenhuma luz no quarto e nenhum barulho, exceto pelas minhas vocalizações. Durante as contrações, eu vocalizava – bem alto, segundo o Renato. No intervalo delas, descansava. Me apoiava na cama, no Renato, na doula, e chegava até a dormir.

    Enquanto ainda estava com soro e já sentia contrações fortes, às vezes tinha que me deitar na cama para ser examinada pela médica. Entendia, então, como era desfavorável a posição deitada para o trabalho de parto. Doía muito. Que tristeza impor às mulheres esta posição para parir (e ainda com as pernas nos apoios, contra a gravidade…). Lembro de ter perguntado se o cardiotoco não poderia ser feito sentada. Sim, podia, e era bem melhor. Sentada na bola, recebia a massagem da doula, do Renato, e me apoiava na cama nas contrações. O bom foi que, após a retirada do soro, não foi mais necessário o cardiotoco. A parteira apenas ouvia o coração do bebê com o sonar, inclusive na banheira. Tentei várias posições: na bola debaixo do chuveiro, em pé apoiada no Renato, na banheira. Nada estava bom. Acabei me acomodando mesmo na bola com os braços apoiados na cama, recebendo massagem nas costas, na altura dos quadris. Fiquei assim umas duas horas. Ao ser examinada, notícia ruim – a dilatação tinha dado uma parada, estava de 6 para 7cm há muito tempo. A obstetra sugeriu mudar de posição, inclinando o corpo para trás. Como não aguentei ficar assim na bola, resolvi tentar a banheira novamente. Ah, as contrações me pegaram antes de encontrar uma posição confortável. Nessa hora, estávamos no banheiro eu, Renato e a doula, e eu disse a eles: estou no intervalo da contração, estou consciente, e vou querer anestesia se não evoluir. E reforcei para o Renato: não vou dar soco no seu olho (era o combinado para eu provar que queria anestesia!), vou querer mesmo se não evoluir. Foi a única vez que mencionei anestesia. E, como disse depois meu marido, orgulhoso, eu não pedi, eu apenas cogitei. Mas logo depois encontrei uma posição boa na banheira – o Renato dentro, atrás de mim, segurando minha cabeça nos intervalos, e a doula segurando um pano, tipo uma canga, que eu agarrava e praticamente me pendurava nas contrações.

    Imagem 2_Relato Carla DieguezPerdi a noção do tempo na banheira. Era um silêncio, me lembro do silêncio. Às vezes a parteira chegava, ouvia o coração do bebê, eu nem abria os olhos. Outras vezes a médica vinha, fazia exame de toque, doía muuiiito! Lembro de ter batido duas vezes no braço dela, pedindo para parar. Após mais de duas horas na água quente (escaldante, como disse meu marido, que suava loucamente…rs), a parteira fez o toque e a notícia: dilatação total, 10cm! Só que tinha um tal rebordo de colo que precisava sair. E quando ela tocava durante a contração para ajudar a tirar o rebordo, eu queria morrer! Então ela sugeriu que eu saísse da água e fosse para o banquinho de cócoras, para começar a fazer força e ajudar nesse finalzinho. Topei na hora. Não tinha desejo de parir na água, sempre pensei na posição de cócoras. Como o Renato queria estar na frente para ver o Bernardo nascer, a doula ficou atrás de mim, me apoiando. Que colo bom! Durante o trabalho de parto foi assim: quando achava uma posição confortável, não queria sair dela.

    Foram aproximadamente 40 minutos de expulsivo. E aí o bicho pegou…A dor, suportável em todo o trabalho de parto, tinha atingido seu ápice. Acho que eu estava com medo da realização do parto que tanto desejei. E gritei muito. Gritei para suportar a dor e esquecer o medo. Berrei, berrei mesmo. Renato disse, depois, que o quarteirão inteiro deveria ter ouvido meus gritos, que ele nunca tinha visto o lado animal de alguém… Lembro da parteira todo o tempo sentada aos meus pés, falando comigo durante as contrações. Em uma única contração em que ela ficou calada, eu reclamei: fala comigo! Eu precisava ouvir que estava indo tudo bem. Às vezes ela colocava o dedo para indicar onde eu deveria fazer força (no início estava fazendo força da maneira errada), e eu gritava: tira o dedo, está doendo muito!!! Ao que ela respondia: não é meu dedo, Carla, é seu bebê descendo, saindo de você. Em outro momento, a obstetra apareceu – ela ficava se revezando entre as duas salas de Delivery, onde outra parturiente também gritava – com um espelho: Carla, olhe, veja a cabecinha do seu filho. E eu dizia de olhos fechados que não queria ver nada. Depois, ela disse: sinta seu filho, ponha a mão, a cabeça está aqui! E eu dizia, sempre de olhos fechados, que não queria por a mão. Estava tão concentrada em fazer o Bernardo nascer que achava que qualquer distração me atrapalharia. Me arrependo disso. Gostaria, sim, de ter sentido sua cabecinha quando ainda estava dentro de mim. Mas, no fim das contas, tudo estava tão intenso que poderia ser que eu não aguentasse mais essa emoção…

    Finalmente senti o tal “círculo de fogo”, sensação parecida com a que eu sentia nos exercícios com o Epi-no, só que multiplicada por mil. Então tudo ficou bom. Fiquei tranquila e até consegui respirar, pensando: se está ardendo lá embaixo é porque ele está saindo, é porque deu certo. A parteira dizia para eu não fazer mais força. Acho que a conjunção entre os exercícios para o períneo com o meu relaxamento nesta hora fez com que não tivesse nenhuma laceração.

    Imagem 3_Relato Carla DieguezÀs 23h40, Bernardo nasceu! Saiu a cabeça, a médica tirou uma circular de cordão, em seguida saiu o corpo. Não sei exatamente em que momento eu abri os olhos, mas o recebi das mãos da parteira em meu colo, todo melado, se mexendo, chorando, quente, gostoso demais! Eu chorava, Renato chorava, eu falava com meu pequenino: “filho, você demorou tanto, que lindo você é, que gordinho…”. Ele tinha dobrinhas! Que momento mágico foi ter meu filho em meus braços segundos após nascer. A médica e a parteira se afastaram por alguns instantes, respeitando nosso momento com o bebê. A doula, querida, continuava me apoiando nas costas, mas invisível. Depois de um tempinho – não sei quanto – a parteira veio com um paninho limpar e aquecer o Bernardo. E então perguntou se eu queria ir para a maca me deitar um pouco. Fui, e fiquei com meu filho no colo enquanto ele era examinado pelo pediatra, enquanto a placenta saía (contrações chatas). Fiquei com ele por quase duas horas. Ele mamou, se aconchegou, dormiu. Que linda e respeitosa forma de nascer.

    O pediatra não estava na sala na hora em que Bernardo nasceu. Ele tinha ido descansar após atender o parto da Delivery ao lado e minha médica não encontrava seu celular para ligar para ele. Chegou quando eu já estava na maca, examinou meu pequeno no meu colo, me ajudou a colocá-lo no seio para mamar. Renato cortou o cordão umbilical quando parou de pulsar. Somente após quase duas horas o pediatra pegou o bebê para pesar (3.525kg, grandão!), dar vitamina K via oral, e só. Nenhuma outra intervenção desnecessária, nem mesmo a medida do bebê. Para que esticar um recém-nascido que tinha acabado de sair de um espaço tão diminuto, após nove meses encolhido? Bernardo não se debateu no ar, pois quando saiu do meu colo foi enrolado em um pano, até para a pesagem. Ficamos muito, mas muito felizes em proporcionar um tratamento humanizado ao nosso pequeno, que não somente foi avisado pelas minhas contrações de que iria nascer como foi recebido em nosso mundo com tanto respeito, na penumbra e no silêncio.

    Eu e Renato, após o parto, enumeramos os mitos que derrubamos no nascimento do Bernardo:

    - não é possível ter um parto normal após uma cesárea;

    - diabetes gestacional é impeditivo para um parto normal;

    - não dá para esperar mais de 40 semanas para o bebê nascer;

    - baixo líquido amniótico é indicação de cesárea;

    - bebê grande é indicação de cesárea;

    - cordão enrolado no pescoço é indicação de cesárea;

    - a episiotomia é necessária e, sem ela, a mulher “se rasga”;

    - não existe parto sem anestesia.
    Imagem 4_Relato Carla Dieguez

    Sobre anestesia, houve quem dissesse que eu era louca de não querer. E muito corajosa por não ter tomado. Não acho nada disso. Tive duas fortes razões. A primeira é que anestesia gera intervenções, vira um parto médico. A indução, para mim, já era intervenção suficiente, e eu queria um parto natural, eu tinha buscado isso. A segunda razão é que eu queria sentir tudo o que pudesse, queria estar consciente e viva! E eu senti meu corpo se preparando para a passagem do meu bebê. Foi maravilhoso saber que eu podia parir, que meu corpo sabia o que fazer – mesmo tendo precisado ser, digamos, estimulado. Foi lindo, intenso, emocionante. Me sinto privilegiada, forte e “empoderada”. Fiz do meu jeito. Tive profissionais incríveis e competentes me acompanhando e – expressão que amo – prestando assistência ao meu parto, ao invés de “fazendo” o meu parto. E tive o apoio incondicional do meu marido. Renato foi muito mais do que um companheiro de trabalho de parto; ele pariu comigo. Foi cuidadoso, atencioso, presente e invisível ao mesmo tempo. Viveu e compartilhou intensamente essa fantástica experiência de colocar um filho no mundo de maneira natural. Deu trabalho. Doeu. Mas a gente faria tudo de novo.

    Bem-vindo, filho querido.

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  3. Apoio ao amor líquido

    Na primeira semana de agosto, comemoramos a Semana Mundial de Aleitamento Materno 2013, que destacou a importância do “Apoio às mães que amamentam: próximo, contínuo e oportuno!”. A seguir, duas mães que acabaram de vivenciar os primeiros meses de amamentação contam suas experiências e falam como o apoio recebido foi essencial para elas.

    Amamentar. Mais que alimentar, nutrir e amar. Crédito: Lente Materna

    Amamentar. Mais que alimentar, nutrir e amar. Crédito: Lente Materna


    Por Daniele Moraes

    Amamentar é nutrir da maneira mais intensa que existe. Dar ao bebê tudo de que ele precisa e mais: amor, cumplicidade, respeito, vínculo, proteção. Para que isso aconteça da maneira mais fluida e natural possível, duas coisas são fundamentais: vontade e apoio. Uma depende da mãe. A outra é compartilhada com todos aqueles que a cercam. Não por acaso, o apoio foi o tema da Semana Mundial de Aleitamento Materno (SMAM) de 2013, celebrada na primeira semana de agosto, sob o lema: “Apoio às mães que amamentam: próximo, contínuo e oportuno!”. Essa foi a 21a edição da SMAM, liderada pela WABA (World Alliance for Breastfeeding Action) e IBFAN (International Baby Food Action Network) – rede internacional em defesa do direito de amamentar.

    Logotipo da Semana Mundial de Aleitamento Materno 2013 - SMAM.

    Logotipo da Semana Mundial de Aleitamento Materno 2013 – SMAM.

    Costumamos chamar esse coletivo que cerca uma mãe recém parida que amamenta de “rede de apoio”. Cabe a essa rede um papel importante: o de estimular e colaborar para que a experiência da amamentação seja bem sucedida e prazerosa. Portanto, pai, familiares, pediatra, amigas e grupos de mães, além de um boa consultora de amamentação e de informações de qualidade, são elementos essenciais no momento do pós-parto e nos primeiros tempos do aleitamento materno.

    Para a psicóloga e doula, Daniela Andretto, o pai tem mesmo papel fundamental. “Não só em relação ao apoio emocional e motivacional à mulher, mas em questões práticas como: promover um ambiente favorável enquanto ela amamenta, oferecer-lhe água, um suco e um lanchinho”. Afinal, reflete, este “é um benefício também ao próprio filho, com a promoção de uma experiência contínua de nutrição e desenvolvimento afetivo e emocional para um crescimento saudável”.

    O incentivo do pediatra é igualmente importante. Segundo Daniela, ninguém tem mais “poder de fala” do que ele. “Mães e pais são extremamente permeáveis à opinião/avaliação deste profissional”. Por isso, acredita, “é essencial escolher um pediatra que esteja alinhado com sua maneira de pensar e em quem possa confiar”.

    Outra dica bacana é buscar amparo em amizades positivas. Neste caso, o convívio entre mães em momento semelhante, que certamente dividirão dúvidas comuns, torna-se também uma oportunidade de compartilhar todo o tipo de emoções e sentimentos. E “distância daquelas companhias que nos deixam para baixo, negativas!”, recomenda Daniela.

    Hoje em dia, as melhores e mais qualificadas informações estão ao um clique de nós. A internet é uma ferramenta poderosa para isso. Porém, muita atenção. “Nem toda informação é útil. Dê espaço para o autoconhecimento, para as próprias impressões. Dê sentido para o que está vivendo antes mesmo de recorrer a informação virtual. A percepção e sentido materno são maiores do que qualquer informação na rede”, destaca.

    Ainda durante a gestação, a melhor forma de se preparar para a amamentação é com a busca de boas informações. Fisicamente nada precisa ser feito para “preparar” as mamas. “A natureza já se encarrega disso, como, por exemplo, aumentando a hidratação natural da aréola e mamilo, através de uma secreção que as glândulas de Montgomery liberam, deixando a pele mais hidratada”, explica Daniela.

    A amamentação é em grande parte baseada na disponibilidade da mulher e no necessário apoio da família. “Saber disso ajuda a mulher a compreender as horas disponíveis que exigirão dela tempo e tranquilidade no período em que estiver amamentando”, acredita Daniela. Conhecer os possíveis problemas, como peito empedrado, também é importante para saber o que fazer e quando procurar ajuda.

    Nestes momentos, a mãe deverá lançar mão de um recurso importantíssimo, a ser acionado tão logo surja uma dúvida mais contundente ou qualquer intercorrência. A consulta oportuna com uma especialista em aleitamento materno, conhecidas como consultoras de lactação, pode ser determinante. Muitas vezes as próprias doulas, parteiras ou mesmo o pediatra podem fazer esse atendimento ou indicar um profissional qualificado.

    Acima de tudo, é interessante não deixar para procurar ajuda apenas em um momento crítico e agudo. “Não deixe um problema que pareça pequeno aumentar para chamar uma consultora. Às vezes, uma simples dica ou uma palavra amiga, motivadora, pode ajudar para que a amamentação tenha um começo positivo, orientando a mãe a lidar com possíveis dificuldades, sem que se tornem um grande problema”, destaca Andretto.


    Veja aqui o depoimento de duas mães que acabam de atravessar os primeiros meses de amamentação e contam com carinho e emoção sobre essa experiência de aprendizado mútuo e muito amor líquido:

    Para Caroline Renata Lucirio, o apoio do marido Thiago, pai do Matheus (3 meses), favoreceu a perfeita conjugação de amor e dedicação, transformando a amamentação no novo cordão umbilical entre ela e o bebê – leia aqui.

    Para Rosane Bevilaqua, mãe de Arthur (3 meses), a superação das dificuldades enfrentadas nos primeiros dias de amamentação trouxe a certeza da importância do apoio recebido, garantindo a plenitude desse momento precioso – leia aqui.

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    Amamentação, Amamentação, Artigos, Depoimentos, Destaques, Reportagens e artigos
  4. A dor do parto

    Cercada de fantasia e incerteza, a dor do parto é temida – como tudo aquilo que é desconhecido. Na experiência de duas mães, Cristina e Ana Lígia, o cansaço e o medo se tornaram desafios maiores que a dor.

    Encontro de Gestantes na Casa Moara sobre a dor do parto. Foto: Daniele Moraes.

    Encontro de Gestantes na Casa Moara sobre a dor do parto. Foto: Daniele Moraes.

    Por Daniele Moraes

    Ainda nos dias de hoje, um universo de incertezas e medos cerca as mulheres quando se fala na dor do parto. Na busca por uma vida plena de prazer e satisfação, sem sacrifício, sem dor, anestesiada e medicalizada, por mais natural que seja, essa dor é vista com insegurança e até como castigo. Uma visão absolutamente cultural – é o que garante a enfermeira obstétrica e parteira, Priscila Colacioppo. “Na cultura ocidental somos intolerantes à dor. No século XXI, então, há tolerância zero à dor”. E Priscila explica que a dor do parto não é patológica. “É fisiológica”, destaca.

    Fisiologicamente, portanto, está relacionada às contrações uterinas ritmadas que caracterizam o trabalho de parto. Pode-se dizer que se assemelha a uma cólica intensa, sentida em ondas, que enrijece (contrai) a barriga e, em geral, irradia para as costas. As contrações têm duração variável, costumam começar espaçadas e curtas, intensificando-se em ritmo e duração à medida que avança o trabalho de parto e, assim, a dilatação do colo do útero. Tudo graças à ação de um hormônio chamado ocitocina.

    A ocitocina é responsável por ativar e manter as contrações que caracterizam o trabalho de parto. Produzida naturalmente pelo organismo, pode ser aplicada sinteticamente em casos de indução de parto ou parada de progressão – sob indicações muito específicas.

    É durante as contrações que acontece a dor, que, dizem, está também “entre as orelhas”. A expressão (que dá título ao excelente livro do obstetra Ricardo Herbert Jones) foi citada pela parteira Priscila no Encontro de Gestantes da Casa Moara, realizado no dia 19 de junho, que teve como tema: “O Alívio da dor no parto: métodos naturais e não farmacológicos”. Na ocasião, dezenas de gestantes e casais buscavam entender e desvendar os mitos e as verdades da temida dor do parto.

    O certo é que não há como defini-la de maneira absoluta. Diz-se que sua percepção é cultural, relativa, diferente para cada mulher, única, intensa, avassaladora, transformadora, viciante, sofrida, orgásmica. Se há uma unanimidade é de que ela é incomparável. Uma sensação difícil de explicar, que acaba no exato instante em que o bebê vem ao mundo, e passa, relatam, como mágica.

    A desmistificação dessa dor parece fundamental a quem está disposta a conhecê-la e enfrentá-la de frente. Domar o boi pelos chifres, como se diz, é um bom termo. Cercada de fantasia e incerteza, a dor do parto é temida – como tudo aquilo que é desconhecido.

    Superar o relativo terrorismo que envolve essa questão, potencializado em nossa cultura, é um dos principais desafios das gestantes que buscam um parto normal. Para isso, é importante conhecer experiências, lançar mão de todas as possibilidades de apoio para o momento, conhecendo prós e contras, e se entregar a esse desafio.

    O cansaço e o medo costumam se colocar neste horizonte. Por isso, lidar com essas questões de uma maneira franca e atenta torna-se essencial para uma boa experiência de parto. Para Cristina Pinto Lima, o grande desafio foi a superação do cansaço físico e mental, após 48 horas de expectativa – entre pródromos (contrações de treinamento) e o trabalho de parto efetivo. A exaustão levou-a a uma transferência do planejado parto domiciliar para o hospital. Lá a analgesia, bem indicada, permitiu que recebesse sua filha Joana com disposição e alegria.

    Leia aqui o relato de Cristina.

    Na experiência de parto de Ana Lígia Soares, ela conheceu o medo. Sucumbiu e renasceu, junto com a pequena Ana Clara. Sua percepção da dor foi muito intensa e em alguns momentos desesperadora, relata. Ela atribui essa sensação ao medo e a dificuldade de se entregar ao processo. Após a superação, veio a certeza de que não há o que temer.

    Leia aqui o relato de Ana Lígia Soares.

     

     

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