A expressão se popularizou, mas muita gente ainda não sabe o que é, afinal de contas, um parto humanizado.
Por Luciana Benatti
Um ambiente acolhedor, com pouca luz e música suave, para deixar a mulher mais à vontade durante o trabalho de parto. Para muita gente, é isso o que diferencia um parto humanizado de um parto normal hospitalar padrão.
Quando se fala em humanização da assistência ao parto, porém, há muito mais coisas em jogo do que a beleza das instalações e a gentileza no trato com as parturientes. Envolve também uma mudança de atitude: respeitar os desejos das mulheres.
“Existem dois tipos de humanismo: o que eu chamo de humanismo superficial, no qual o quarto é bonito e a mãe é tratada de maneira amável, mas a taxa de intervenções não diminui, e o que eu chamo de humanismo profundo no qual a profunda fisiologia do nascimento é honrada”, observa a antropóloga norte-americana Robbie Davis-Floyd num artigo publicado pela revista Midwifery Today em 2007.
Mas a que intervenções exatamente ela se refere? Os procedimentos hospitalares realizados rotineiramente durante o parto são necessários para ajudar no processo natural, de modo a garantir a manutenção da saúde da mãe e do bebê, certo?
Errado. Essa é a primeira questão difícil de compreender: pesquisas científicas mostram que muitas das intervenções médicas praticadas atualmente no parto normal são, na verdade, desnecessárias e prejudiciais. No entanto, continuam sendo feitas. Por quê? Boa pergunta…
No dia 14 de abril, um sábado, 13 mães com bebês estiveram na Casa Moara para o primeiro encontro da Roda Materna, grupo criado para a troca de experiências entre mães.

Por Lu Nervegna*, mãe de Lorena e Manoella
Compartilhar experiências que todas atravessamos em algum momento nessa caminhada da maternidade. Foi nessa intenção que nos reunimos no último sábado, dando início à Roda Materna.
Tivemos a oportunidade de ouvir cada história: mulheres, mães com seus bebês, em uma grande roda de força em movimento. Os sentimentos eram de gratidão, apoio e amizade.
A maternidade se torna mais doce e suave quando buscamos conviver com outras mães. Mesmo sendo muito diferentes umas das outras, conseguimos aprender com cada experiência e reformular ideias preconcebidas.
Cada mulher vivencia as fases do pós-parto de maneira única. E não me refiro somente ao período da quarentena, como culturalmente estamos habituadas. Psicologicamente o pós-parto dura muito, muito mais.
Mas o principal é saber que não estamos sozinhas nessa caminhada, que alguns aspectos são comuns a toda mulher que se torna mãe.
Venha para a Roda!
*Lu Nervegna é uma das coordenadoras da Roda Materna.
Especialista em partos normais, essa profissional – que tem formação de enfermeira obstetra ou obstetriz – é cada vez mais requisitada nos grandes centros por mulheres em busca de uma experiência natural e afetiva no nascimento dos filhos. Tudo isso, é claro, sem abrir mão da segurança.

Tatiana e Tito, que nasceu com a ajuda das parteiras
Por Luciana Benatti
“Escolhi ser assistida por parteiras porque parir é natural e fisiológico”, resume a fotógrafa Tatiana , mãe de Tito, que nasceu em casa, em São Paulo, pelas mãos dessas profissionais. Embora ainda constituam um universo pequeno, é cada vez maior o número de mulheres que, assim como Tatiana, trocam o médico pela parteira para acompanhá-las ao longo da gestação e na hora do parto.
“Elas acreditam na força do corpo da mulher. E possuem experiência e sabedoria para acompanhar o parto. Se houver necessidade de apoio médico, serão as primeiras a orientar”, completa Tatiana.
Embora também se intitulem parteiras, as profissionais que atuam hoje em dia nos grandes centros diferem das parteiras tradicionais, que costumam atender em comunidades mais remotas, porque possuem formação acadêmica, ou seja, frequentaram a universidade.
Existem atualmente dois caminhos para se tornar uma parteira urbana (ou parteira moderna) no Brasil: cursar Enfermagem e se especializar em Obstetrícia ou buscar uma vaga no único curso superior de Obstetrícia do país, oferecido no campus da USP Leste, em São Paulo.
Criado por um grupo de enfermeiras obstetras, o curso da USP colocou no mercado 130 obstetrizes desde 2008, ano em que formou sua primeira turma. A principal justificativa para a sua criação foi a necessidade de melhorar a assistência à saúde da mulher. “O curso é uma resposta às demandas sociais por um grande número de profissionais capacitados a promover a saúde da mulher e a prestar assistência humanizada”, reafirmou a coordenadora Nádia Zanon Narchi em março, num debate sobre a contribuição das obstetrizes para o Sistema Único de Saúde, em Guarulhos, SP.
O ideal é não tomar. Por um motivo simples: todo medicamento pode ter efeitos adversos. Por outro lado, trata-se de um recurso valioso se usado com critério e o consentimento da mulher, que deve ser informada não apenas dos benefícios, mas também dos riscos.

Foto de Marcelo Min para o livro Parto com Amor (Panda Books)
Por Luciana Benatti
Um direito de todas as mulheres. É assim que o alívio da dor do parto deve ser entendido. A escolha deveria ser sempre da gestante, baseada em informações corretas e atualizadas sobre os prós e contras de cada opção. É o que se chama de escolha informada.
No Brasil, porém, o direito de escolha é para poucas. A maioria das gestantes não tem opção. No sistema particular, quem consegue escapar da cesárea, leva obrigatoriamente a anestesia peridural “no pacote” do parto normal. No sistema público, ao contrário, a anestesia não costuma ser um recurso disponível para o trabalho de parto. Em ambos, é raro haver a alternativa dos métodos naturais, que costumam ser vistos com desconfiança.
Na prática, portanto, decidir tomar ou não analgesia só é possível para quem pode contar com uma equipe humanizada de assistência ao parto. Nesse caso, a mulher é questionada e até ridicularizada por amigos e familiares, incapazes de entender os motivos de sua opção. E sofre ao ouvir comentários do tipo: “Para que você quer sentir dor?”, “Isso é parto de índio!”, “Você está pensando que vai aguentar, mas na hora vai implorar pela anestesia”. (Leia os depoimentos abaixo.)
Muitos ainda acha que parto humanizado é sinônimo de parto sem anestesia. “E se na hora, morrendo de dor, eu implorar por anestesia, a médica não vai me deixar tomar?”, perguntou-me tempos atrás uma amiga a quem recomendei uma obstetra humanizada. Obviamente, não há uma regra: existem partos humanizados com e sem analgesia.
O ideal é não tomar. Por um motivo simples: todo medicamento de alívio da dor pode ter efeitos adversos, como a hipotensão da mãe (pressão sanguínea abaixo do normal), que pode levar à queda nos batimentos cardíacos do bebê e à necessidade de uma cesárea de urgência. É preciso entender que, ao interferir na evolução natural do trabalho de parto, a anestesia pode desencadear a chamada “cascata de intervenções”, que às vezes terminam num parto cirúrgico. Por outro lado, pode ser um recurso que ajuda, por exemplo, num trabalho de parto muito longo. Se a mãe já está exausta, sem forças para continuar, uma analgesia pode ser bem-vinda para que parto normal continue sendo possível.
Tudo começou quando Jaqueline, grávida de Maria Flor, publicou num grupo virtual de mães e gestantes o link para o vídeo Reflections of Motherhood. O fio condutor é uma pergunta, respondida ao longo do filme por várias mães: Se pudesse voltar no tempo, até pouco antes de ter seu primeiro filho, o que diria a si mesma? “Você é bonita”, afirma uma. “É normal ter medo”, pondera outra. “Homens de verdade trocam fraldas”, diz uma terceira.
A mensagem sensibilizou outras mães da rede de contatos de Jaqueline. Jana logo compartilhou o conteúdo no Facebook. Ingrid viu, achou lindo e sugeriu fazerem uma versão brasileira. Outras amigas rapidamente aderiram à ideia. “Sugeri data e local, a Casa Moara. Tenho muito carinho pelo espaço e acredito que todas essas mães também”, conta Ingrid. A maioria delas já se conhecia pessoalmente de nossos grupos de gestantes e pós-parto ou das aulas de yoga ou dança. “Além do espaço físico lindo, há toda aquela atmosfera tranquila, segura e amistosa”, justifica Ingrid, sobre a escolha do local para as fotos.
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Diferente de outras sensações dolorosas, como a provocada por uma topada na quina da mesa, por exemplo, a dor do parto nos traz benefícios, crescimento e evolução.
Por Claudia Xavier*
Sempre que o medo da dor é abordado no curso vivencial de preparação para o parto, a procura é tão grande que temos lista de espera para uma nova data. Mas por que esse tema é tão intrigante?
Na época de nossas avós, as informações e impressões sobre medo e dor no parto eram passadas oralmente, nas rodas de tias, primas e comadres. Sentadas à mesa da cozinha, elas falavam sobre como vivenciaram e perceberam suas dores e seus medos.
Eram histórias restritas ao universo feminino. Se um homem aparecesse, elas se calavam até que ele se retirasse. Só então retomavam seus discursos.
A entrada do homem nesse universo se deu por meio da medicina. Tomados de curiosidade por esse evento tão grandioso, os médicos deitaram as mulheres na maca e passaram a tratar o parto como enfermidade.
De tanto ouvir histórias “terríveis” sobre parto, contadas por familiares ou mesmo difundidas pela mídia, que ainda hoje não compreende bem o evento do nascimento, nós mulheres tememos o parto. Tememos o nascimento. Tememos a vida. E agora estamos começando a levantar o véu para ver o que há por trás do medo da dor do parto.
No curso vivencial de preparação para o parto, abrimos o encontro sobre esse tema com um debate, muitas vezes acalorado, sobre o que é o medo. Por que temos medo? Quais são os outros medos por trás do medo da dor?
O objetivo é facilitar o reconhecimento de angústias ocultas que circundam o parto, como o medo do desconhecido, do fracasso e até mesmo o medo de morrer. E, uma vez que as participantes conseguem identificar seus medos por trás do grande medo, com o auxílio das técnicas utilizadas, buscamos capacitá-las a deixarem de se identificar com eles e e partirem para a transformação, a elaboração e a integração da experiência do parto.
Neste encontro, trabalhamos também as imagens internas da dor do parto. Por meio do relaxamento, estimulamos o contato direto com as referências internas que cada pessoa possui em relação à dor, permitindo assim que as participantes possam externalizar suas imagens da dor do parto.
Longe das imagens midiáticas e hollywoodianas que conhecemos, o que as grávidas costumam trazer como suas próprias imagens internas da dor são figuras fluidas, coloridas e com movimento. Muitas delas em formas circulares e centrais, de caráter orgânico. Demonstrando que internamente toda gestante sabe que a dor do parto é uma dor integrativa, que nos traz benefícios, crescimento e evolução.
Diferentemente daquela topada na quina da mesa, a dor integrativa é aquela que aceitamos, da qual não fugimos. É a dor do atleta em busca do seu limite. É a dor da bailarina com seus pés pressionados na sapatilha de ponta. É a dor que nos proporciona evolução, que nos leva a conhecer melhor o nosso corpo e a nossa mente. A dor do parto é uma oportunidade de nos conhecermos profundamente.
*Claudia Xavier é pós-graduada em Psicologia Transpessoal. Na Casa Moara, coordena um programa vivencial de preparação para o parto e a maternidade.
No Brasil, muita gente teme o fórceps, pois o vê como um instrumento agressivo e ultrapassado. Já o vácuo-extrator – ventosa que, por sucção, ajuda a tracionar a cabeça do bebê –, ainda é desconhecido pela maioria das pessoas. Saiba como essas duas técnicas, quando bem indicadas e corretamente empregadas, podem ser decisivas num parto normal complicado, ajudando a evitar a cesárea.
Neste vídeo, o obstetra Jorge Kuhn fala sobre o uso de fórceps e vácuo. Clique na imagem para assistir.
Por Luciana Benatti
A fama do fórceps, ao longo da história, nunca foi lá muito boa. O mais antigo exemplar de que se tem notícia foi criado por Peter Chamberlen, cirurgião-barbeiro nascido em Paris, em 1560. O curioso é que, durante anos, o invento permaneceu um segredo guardado a sete chaves. Às mães não era permitido ver o objeto metálico, guardado em uma grande caixa de madeira com entalhes. Cinco gerações da família Chamberlen mantiveram o segredo. Mulheres e parteiras da época pagavam uma alta quantia quando tinham de contratá-los para ajudar a extrair o bebê durante um parto difícil.
Uma conversa sobre gravidez, parto, pós-parto e amamentação. Do ponto de vista masculino.

Por Marcelly Ribeiro*
Há alguns anos, grávida pela primeira vez, frequentei um grupo de apoio a gestantes que foi fundamental para o meu processo de busca pelo parto natural. Nos encontros conheci casais que compartilhavam a ideia que uma mulher prestes a parir deve ser respeitada e amada e o bebê que virá ao mundo deve igualmente ser respeitado e tratado com todo cuidado, calma e amor. Nesses encontros ouvi inúmeros relatos de parto, de todos os tipos, conheci mulheres e homens fantásticos que reinventaram suas relações depois da chegada do bebê, tirei dúvidas, desconstruí no meu íntimo os medos e tabus que rodam o parto. Fiz sinceras amizades.
Depois que minha filha nasceu, passei para o “lado de cá”, comecei a dar aulas de yoga para grávidas, tornei-me doula e passei a ajudar na coordenação dos encontros de gestantes da Casa Moara. Em pouco mais de um ano tive contato com muitas histórias lindas de busca e resgate do parto. Vi e ouvi casais unidos pela motivação de viver a experiência única e natural que é dar a luz a um filho. Emocionei-me com seus relatos de parto.
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Estudos mostram que a presença dessa profissional, especializada em oferecer suporte emocional e físico durante o parto, diminui a necessidade de intervenções e aumenta a satisfação da mulher.

Apoio em dobro: duas doulas participaram do nascimento desta família
Você sabe o que é doula? A palavra vem do grego e significa “mulher que serve”. Doula é uma acompanhante que oferece suporte físico, emocional e afetivo ao casal durante o trabalho de parto. Por suporte físico, entenda-se segurar a mão, fazer massagens e sugerir posições de maior conforto para a mulher. Por suporte emocional e afetivo, acalmá-la com palavras de apoio e incentivo.
Ao contrário do que alguns imaginam, doulas não “fazem parto”, ou seja, não substituem o médico, a enfermeira, a obstetriz, a parteira. Sendo assim, também não realizam procedimentos médicos ou de enfermagem. Nem competem com o marido ou outro acompanhante de escolha da mulher! E, apesar de todos esses “nãos”, elas têm uma função muito importante no parto: proporcionar conforto e segurança à mulher, mantendo um clima de tranquilidade durante o parto.
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A especialista Maria Christina Brunetti esclarece as dez dúvidas mais comuns sobre saúde bucal na gestação. Em março de 2012, ela estará na Casa Moara para oferecer o Curso Grávidas no Dentista, especialmente preparado para orientar as mulheres nessa fase da vida.
Por Luciana Benatti
Ao definir uma linha de pesquisa para o doutorado, a dentista Christina Brunetti estava com 41 anos, não tinha filhos e se considerava “sem tempo para a gestação”. Quis a vida que ela escolhesse um tema que envolvia justamente… Gestantes e bebês! Para estudar a relação entre doença periodontal e nascimento prematuro, passou dois anos visitando maternidades e colhendo dados para o seu trabalho. No final do segundo ano, engravidou sem planejar. “Acabei de escrever minha tese gestando o Ric, e minha defesa aconteceu 24 dias antes de ele nascer”, conta, sobre o nascimento de Ricardo, hoje com nove anos.
A convivência com as mães que contribuíram para o seu estudo foi uma grande oportunidade de aprendizado. “Percebi quantas dúvidas e preocupações elas tinham a respeito dos seus próprios cuidados bucais e os de seus bebês. Ouvi muitas histórias folclóricas: por exemplo que cada gestação custa um dente ou que na gravidez a mãe perde cálcio dos dentes para o bebê. E identifiquei muito medos, como o de tomar anestesia durante a gestação. Senti também um certo desamparo, pois muitos dentistas não querem ou têm receio de atender gestantes.”
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