Como a alimentação pode impactar na fertilidade?

A experiência da infertilidade pode causar impactos físico, psicossociais e econômicos significativos nos casais. Há fortes evidências de que padrões alimentares saudáveis entre homens e mulheres em idade reprodutiva têm um efeito benéfico sobre a fertilidade. 

Já sabemos da importância dos primeiros 1000 dias na vida de todo ser humano como uma janela de oportunidades para assegurar um futuro mais saudável e próspero para toda a sociedade. Mais recentemente, esse período foi ampliado para incluir os primeiros três meses antes da concepção, totalizando 1100 dias, compreendendo o período desde a pré-concepção (90 dias), a gestação (280 dias), o primeiro ano de vida (365 dias) e o segundo ano de vida (365 dias). Estudos em neurociência, biologia e desenvolvimento infantil concluíram que a nutrição adequada neste período representa enorme impacto no desenvolvimento da criança. Adicionalmente, tem efeito profundo na saúde no longo prazo, na estabilidade social e no desenvolvimento de comunidades e nações inteiras.

Um padrão alimentar saudável foi associado a uma fertilidade melhorada em mulheres e qualidade de sêmen superior em homens. Mas o que seria esse padrão alimentar saudável?

Estudos indicam que o consumo de certos grupos alimentares em maior proporção no cardápio pode contribuir para a saúde reprodutiva. O consumo de grãos e cereais integrais, de ácidos graxos essenciais (mono e poliinsaturados) presente em azeites, abacate e oleaginosas, de verduras, legumes, frutas e peixes está associado a esses efeitos benéficos na fertilidade.  

Alguns estudos observaram que mulheres com uma alimentação cujas fontes proteicas eram baseadas em fontes vegetais (como as leguminosas), com adequado consumo de ferro e de gorduras monoinsaturadas (como as presentes no abacate, azeite de oliva e algumas sementes oleaginosas), durante o período pré-concepção, apresentaram menor risco de infertilidade relacionada a distúrbios ovulatórios e outras causas.

Alguns estudos também sugerem que carne vermelha ou seu excesso no cardápio pode ter efeito adverso na fertilidade. Apesar de a ingestão de ferro poder estar reduzida se a ingestão de carne vermelha for restrita, já foi demonstrado que o consumo de suplementos de ferro (quando necessário) e o consumo de ferro presente em fontes vegetais (como feijões e algumas verduras verde-escuras)  fontes pode diminuir o risco de infertilidade ovulatória. O conteúdo de gordura saturada, que é particularmente mais alto em carnes vermelhas, foi independentemente relacionado à menor concentração de sêmen. Por outro lado, as gorduras poli-insaturadas , como o ômega-3, mostraram benefícios reprodutivos em homens e mulheres. 

Dados sobre as associações entre nutrientes e alimentos específicos com a fertilidade nos ajudam a entender os fatores que ligam a dieta à saúde reprodutiva. Por exemplo, é o caso do folato, uma das vitaminas do complexo B cujo metabolismo é muito bem estudado na fertilidade. Baixos níveis de folato estão relacionados a defeitos na formação do tubo neural em fetos e maiores chances de abortos espontâneos. A deficiência de vitamina B12 também está associada a maior risco de abortos e má formação de tubo neural. Ambas vitaminas (folato e B12) são fundamentais para a síntese de DNA dentro das células, e a falta desses dois nutrientes críticos impacta decisivamente a saúde reprodutiva.

Outro grupo de nutrientes fundamentais para a fertilidade são os antioxidantes, como β-caroteno, vitamina C e E e selênio que são eficientes em encurtar o tempo de concepção. Vale lembrar que os antioxidantes estão prioritariamente presentes em alimentos de origem vegetal e que uma alimentação baseada em vegetais (plant-based) tem inúmeras vantagens anti-inflamatórias.

O consumo em excesso de alimentos ultraprocessados também pode impactar a fertilidade. Um estudo com mais de 3500 mulheres planejando engravidar observou que as mulheres que relataram consumir 3 ou mais porções de refrigerante por dia tiveram uma taxa de gravidez 52% menor em comparação com mulheres que não relataram nenhum consumo de refrigerante. Em homens, há estudos indicando que o alto consumo de açúcar está associado à baixa qualidade do sêmen e ao aumento da infertilidade.

Manter um peso saudável também é importante para a fertilidade. As pesquisas indicam que tanto o excesso de peso como a desnutrição podem prejudicar a saúde reprodutiva. Dietas desequilibradas com teores inadequados de carboidratos, ácidos graxos, proteínas, vitaminas e/ou minerais afetam não só a ovulação, mas também a qualidade dos embriões e a eficiência da implantação no útero. Sabemos que dietas restritivas podem reduzir a maturação ovulatória nas mulheres: a bulimia nervosa e a anorexia, duas condições patológicas que afetam 5% das mulheres em idade reprodutiva, são causas indiscutíveis de amenorréia, infertilidade e abortos espontâneos.

OBESIDADE

A obesidade, além de afetar a saúde reprodutiva, também está associada a resultados adversos da gravidez, como diabetes gestacional, hipertensão e partos prematuros. A resistência à insulina, condição presente em maior frequência nos casos de obesidade, aparece como um importante mecanismo patogênico que prejudica a fisiologia das funções ovulatórias. 

As mulheres que experimentam problemas de fertilidade correm um risco maior de depressão. Além disso, mulheres com depressão pré-existente podem ter maior probabilidade de sofrer de infertilidade devido a mudanças fisiológicas na produção de hormônios e ovulação. Além dos efeitos da alimentação saudável sobre os resultados relacionados à fertilidade, certos padrões alimentares mostraram proteger contra a depressão. 

A promoção de padrões alimentares saudáveis e adequada ingestão de nutrientes críticos em indivíduos com infertilidade podem melhorar não só as chances de engravidar, mas também auxiliar na carga psicológica associada. É importante salientar que dietas rigorosas não são recomendadas. Um estilo de vida saudável e equilibrado, sem restrições desnecessárias, além de promover a saúde física, impacta positivamente na saúde emocional e mental dos casais. 

Em conclusão, um equilíbrio correto de proteínas, carboidratos, lipídios, antioxidantes, vitaminas e minerais na dieta diária fornece benefícios essenciais para uma ótima saúde reprodutiva e reduz o risco de infertilidade. Promover padrões dietéticos balanceados envolve considerar o comportamento alimentar como um todo, incluindo os aspectos sociais e emocionais do casal, para o planejamento do cardápio e a adesão a um estilo de vida saudável e viável para a família. 

 

Texto: Rachel Francischi
Nutricionista

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